Galvanização a quente, zincagem electrolítica e metalização são três processos diferentes, com normas diferentes, e para o regulador europeu são até regimes jurídicos diferentes. A confusão entre eles é a causa mais frequente de peças que se degradam antes do previsto — e de discussões comerciais que se resolvem, quando se conhece a regra, com um ensaio gravimétrico. Este artigo explica o que distingue cada um, que espessuras a norma exige, como se estima durabilidade sem inventar números, e a partir de que limiar uma instalação precisa de licença ambiental em Portugal.
Três processos, três normas
| Processo | Como funciona | Norma de referência |
|---|---|---|
| Galvanização a quente por imersão | A peça é imersa num banho de zinco fundido, que contém no máximo 2% de outros metais. Forma-se uma camada metalurgicamente ligada ao aço | ISO 1461:2022 |
| Zincagem electrolítica | Deposição de zinco por via electroquímica, a partir de soluções de cloreto de zinco ácido ou de zinco alcalino. Segue-se quase sempre um tratamento de conversão — passivação — que faz parte integrante do sistema de protecção | ISO 2081:2018 |
| Metalização, ou projecção térmica | Projecção de zinco, alumínio ou suas ligas sobre a superfície. Aplicável em serviço entre −50 °C e +200 °C | ISO 2063-1:2019 |
Que não são variantes do mesmo, confirma-o o próprio regulador. As Conclusões sobre Melhores Técnicas Disponíveis para o processamento de metais ferrosos declaram expressamente que não abrangem nem o revestimento por pulverização térmica nem as técnicas de electrodeposição — estas últimas caem noutro conjunto de conclusões, o do tratamento de superfície de metais e matérias plásticas.
Uma nota de honestidade: não citamos aqui espessuras típicas de zincagem electrolítica nem de metalização. Os intervalos que circulam não vêm de fonte primária acessível, e as tabelas estão na parte paga das normas. Preferimos não dar um número a dar um número que não podemos sustentar.
ISO 1461: as espessuras que a norma exige
A norma especifica as propriedades gerais dos revestimentos galvanizados e os métodos de ensaio. Aplica-se a peças fabricadas — exclui produtos contínuos e tubos em instalações automáticas, que têm normas próprias.
Espessuras mínimas para artigos não centrifugados:
| Espessura do aço | Espessura local mínima | Espessura média mínima |
|---|---|---|
| > 6 mm | 70 µm (505 g/m²) | 85 µm (610 g/m²) |
| > 3 a ≤ 6 mm | 55 µm (395 g/m²) | 70 µm (505 g/m²) |
| ≥ 1,5 a ≤ 3 mm | 45 µm (325 g/m²) | 55 µm (395 g/m²) |
| < 1,5 mm | 35 µm (250 g/m²) | 45 µm (325 g/m²) |
Para artigos centrifugados, como peças roscadas: 40 e 50 µm acima de 6 mm de espessura de aço, e 20 e 25 µm até 6 mm.
Estes valores correspondem às tabelas da norma e foram confirmados em fonte associativa qualificada do sector; a cláusula correspondente da edição de 2022 está na parte paga da norma. Antes de os usar num caderno de encargos, vale confirmar na edição em vigor.
Quantas peças se ensaiam
| Artigos no lote | Amostra mínima |
|---|---|
| 1 a 3 | todos |
| 4 a 500 | 3 |
| 501 a 1 200 | 5 |
| 1 201 a 3 200 | 8 |
| 3 201 a 10 000 | 13 |
| mais de 10 000 | 20 |
A regra que resolve litígios
A medição corrente faz-se por métodos magnéticos, segundo a ISO 2178 e a ISO 2808. Mas a norma é explícita sobre o que vale quando há desacordo entre cliente e galvanizador: em caso de litígio, a espessura determina-se pela massa média de revestimento por unidade de área, pelo método gravimétrico da ISO 1460.
Quem discute espessuras com medições magnéticas está a discutir com o instrumento errado. Vale a pena saber isto antes da reunião, não depois.
O que mudou na edição de 2022
Face à edição anterior: novas definições — galvanizador, tratamento posterior, revestimento adicional, manchas de armazenamento húmido e sistema duplex; clarificação das áreas de referência; revisão dos requisitos de renovação; reagrupamento de todos os requisitos de espessura numa só cláusula; e actualização da informação de resistência à corrosão por remissão para a ISO 9224.
Durabilidade: como se estima sem inventar
Circulam tabelas do género «85 µm em ambiente C3 dá 40 anos». Essa tabela não existe em norma. A ISO 14713-1 não a contém — diz apenas que «a vida de um revestimento de zinco em qualquer condição de exposição atmosférica é aproximadamente proporcional à espessura do revestimento».
O que existe são taxas de corrosão do zinco por classe de corrosividade do ambiente, na ISO 9223:
| Categoria | Ambiente | g/(m²·ano) | µm/ano |
|---|---|---|---|
| C1 | muito baixa | ≤ 0,7 | ≤ 0,1 |
| C2 | baixa | 0,7 a 5 | 0,1 a 0,7 |
| C3 | média | 5 a 15 | 0,7 a 2,1 |
| C4 | alta | 15 a 30 | 2,1 a 4,2 |
| C5 | muito alta | 30 a 60 | 4,2 a 8,4 |
| CX | extrema — marítima e marítima/industrial | 60 a 180 | 8,4 a 25 |
A ressalva é decisiva e quase nunca se faz: estes são valores do primeiro ano de exposição. A taxa real decresce nos anos seguintes, por passivação da superfície. Dividir a espessura pela taxa do primeiro ano dá uma estimativa conservadora — não uma previsão de vida útil.
Numa peça de aço com mais de 6 mm, com os 85 µm de espessura média que a ISO 1461 exige, num ambiente C3 com taxa de 2,1 µm/ano no primeiro ano, o cálculo dá cerca de 40 anos. É um cálculo derivado, com a fórmula à vista, e não um valor tabelado. É assim que deve ser apresentado num orçamento — e é assim que se percebe porque é que a mesma peça dura menos junto ao mar.

O que acontece antes da imersão
A galvanização não começa no zinco. A sequência é desengorduramento, decapagem ácida e fluxagem, e é dela que sai a maior parte dos resíduos do processo — e da carga ambiental da instalação.
Que a cadeia é esta, confirma-o a própria definição regulatória de um subproduto do banho: as escórias de fundo são descritas como o produto da reacção do zinco fundido com ferro ou sais de ferro «transferidos da decapagem ou da fluxagem».
As melhores técnicas disponíveis para reduzir emissões nesta fase incluem a fluxagem com baixa emissão de fumos — substituição parcial do cloreto de amónio por outros cloretos alcalinos, como o cloreto de potássio —, a minimização da solução transferida com tempo de escorrência suficiente e secagem antes da imersão, e a extracção de ar o mais próximo possível da fonte.
Resíduos: os códigos LER que interessam
Há dois capítulos da Lista Europeia de Resíduos a conhecer, e um deles surpreende.
Capítulo 11 01 — tratamentos químicos de superfície
A designação do capítulo nomeia expressamente galvanização, zincagem, decapagem, fosfatação, desengorduramento alcalino e anodização. Os códigos com asterisco são resíduos perigosos:
- 11 01 05* ácidos de decapagem · 11 01 07* bases de decapagem
- 11 01 09* lamas e bolos de filtração com substâncias perigosas · 11 01 10 os mesmos sem substâncias perigosas
- 11 01 11* e 11 01 12 líquidos de lavagem aquosos, com e sem substâncias perigosas
- 11 01 13* e 11 01 14 resíduos de desengorduramento
- 11 01 16* resinas de permuta iónica saturadas ou usadas
Capítulo 11 05 — galvanização a quente
| Código | Designação | Perigoso |
|---|---|---|
| 11 05 01 | escórias de zinco | não |
| 11 05 02 | cinzas de zinco | não |
| 11 05 03* | resíduos sólidos do tratamento de gases | sim |
| 11 05 04* | fluxantes usados | sim |
É contra-intuitivo e vale a pena reter: escórias e cinzas de zinco não são resíduos perigosos na Lista Europeia — enquanto os fluxantes usados e os resíduos do tratamento de gases são. A classificação correcta muda o destino admissível, o custo de encaminhamento e as obrigações de registo.
Quando é preciso licença ambiental
Uma instalação de tratamento de superfície pode ficar abrangida pelo regime de emissões industriais por dois caminhos distintos, definidos no Anexo I do Decreto-Lei n.º 127/2013:
- Categoria 2.6 — tratamento de superfície de metais ou matérias plásticas por processo electrolítico ou químico, «quando o volume das cubas utilizadas no tratamento realizado for superior a 30 m³»;
- Categoria 2.3, alínea c) — aplicação de revestimentos protectores de metal em fusão «com uma capacidade de tratamento superior a 2 t de aço bruto por hora».
Uma galvanizadora pode ficar abrangida por qualquer um dos dois, e basta um. Quem ultrapassa o limiar carece de licença ambiental antes de iniciar a exploração, e passa a estar sujeito às conclusões sobre melhores técnicas disponíveis do sector — as do processamento de metais ferrosos para a galvanização descontínua, as do tratamento de superfície para a electrodeposição.
O cálculo do volume das cubas para efeitos da categoria 2.6 tem nota interpretativa própria da Agência Portuguesa do Ambiente, e é aí que se deve confirmar como se contabiliza — não em estimativas de fornecedor.
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Perguntas frequentes
Qual a diferença entre galvanização a quente e zincagem?
A galvanização a quente é por imersão em zinco fundido e forma uma camada ligada metalurgicamente ao aço; a zincagem electrolítica deposita zinco por via electroquímica e é normalmente seguida de um tratamento de conversão. São processos com normas distintas — ISO 1461 e ISO 2081 — e, para efeitos ambientais europeus, regimes distintos.
Que espessura mínima exige a norma?
Depende da espessura do aço. Para peças com mais de 6 mm, 70 µm de espessura local mínima e 85 µm de espessura média. Para peças abaixo de 1,5 mm, 35 e 45 µm.
Como se mede a espessura em caso de discordância?
Pelo método gravimétrico da ISO 1460, que determina a massa média de revestimento por unidade de área. É o método que a norma manda usar em litígio, e prevalece sobre as medições magnéticas correntes.
Quantos anos dura uma peça galvanizada?
Não há tabela normativa que o diga. Estima-se dividindo a espessura pela taxa de corrosão do zinco na classe de ambiente aplicável — e a estimativa é conservadora, porque essas taxas são as do primeiro ano de exposição e decrescem depois.
As escórias de zinco são resíduo perigoso?
Não. Escórias (11 05 01) e cinzas de zinco (11 05 02) não são classificadas como perigosas. Já os fluxantes usados (11 05 04*) e os resíduos sólidos do tratamento de gases (11 05 03*) são.
A minha instalação precisa de licença ambiental?
Se o volume das cubas de tratamento electrolítico ou químico ultrapassar 30 m³, ou se a capacidade de revestimento por imersão a quente ultrapassar 2 toneladas de aço bruto por hora, sim.
Fontes: ISO 1461:2022, ISO 2081:2018, ISO 2063-1:2019, ISO 9223:2012, ISO 14713-1:2017 e ISO 14713-2:2019; Decisão 2014/955/UE (Lista Europeia de Resíduos, versão portuguesa); Decisão de Execução (UE) 2022/2110 (conclusões MTD para o processamento de metais ferrosos); Decreto-Lei n.º 127/2013, de 30 de agosto, Anexo I. As espessuras da ISO 1461 foram confirmadas em fonte associativa do sector, por a cláusula correspondente da edição de 2022 não estar em acesso aberto; não citamos espessuras de zincagem electrolítica nem de metalização por não termos fonte primária acessível. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta das normas nem apoio técnico especializado.
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